I Volume - Crônicas da Vida
Participe com uma crônica cujo tema seja pertinente aos assuntos do Sipenet: algo sobre a família, os filhos, netos, etc... (veja http://www.sipenet.com/ ). Pode ser sobre uma viagem recente, algum evento marcante, o amor, a gratidão, seu cachorrinho... Enfim, dê asas à imaginação.
Basta postar Comentário (tema livre) sobre essa rubrica com um bom título e cujo texto não seja muito grande (menos de 2000 toques). Para Postar use a seguinte sequência em "Comentários" - a crônica ficará com seu nome e título listada à direita do Blog, além do título do comentário:
"Seu_nome ou nome_artístico" - "Título"
por exemplo:
Fulano(a) de Tal - O dia em que encontrei o Papa
Participe. Quem sabe não sai um livro depois?
Convide seus amigos e amigas, divulque em suas redes sociais.
Vamos fazer do Sipenet um bom lugar de convivência.
Um grande abraço
Arnaldo
Ermelinda de Jesus Silva - O Caravela
ResponderExcluirEra conhecido como o Caravela, o corvo que morava na carcaça de um velho Barco Rabelo exposto à cultura, símbolo e força para os novos que fazem ainda hoje a travessia no Douro transportando os barris do Vinho do Porto.
Caravela entrava e saía do esconderijo diariamente levando no bico um saco branco, voando para Norte rumo aos campos alcantilados em leiras por onde se estendem as vinhas do Douro até Foz Coa.
Para todos não passava de uma ave entre tantas com a mania das presas, por debicar do rio para o saco. Contudo, o corvo dava outras voltas que o horizonte humano não alcançava por não ser circular e perfeito. Entrava à noite e saía pela manhã. Tinha a sua gaiola ali, talvez apenas um abrigo passageiro - como de passagem estão todas as aves -, e voava todos os dias mais alto e mais longe.
Descansava numa ravina entre a cidade e o rio poisando o saco que ficava pesado e martirizava as suas asas de pássaro; o bico tinha-se tornado uma mão que afagava gente solitária e triste. Era apenas um corvo, uma ave preta, sem uma tradição que não fosse a de ser forte, fiel e inteligente.
Conhecia o Douro como sabia a força de planar as suas asas.
Um dia, ao atravessar a Ponte D. Luís, assustou-se com a passagem do comboio e perdeu a orientação; caiu a pique e foi bater com o corpo todo no molhe de outro Rabelo. Esperou um pouco para se recompor do voo livre e perguntou, picando com o bico o vidro lateral:
- Barco Rabelo, quem te conduz? Onde está o timoneiro que lhe quero agradecer a vida?
Alguém veio até junto do corvo e observou-o de dentro tentando decifrar a pergunta e respondeu:
- Corvo negro, que procuras aqui? Não te terás enganado? És conhecido pelo Caravela e o teu barco não é este. Mas está bem, fica! O corvo, muito triste, porque o Refinado não percebera nada, escreveu com a patinha direita a palavra OBRIGADA que ficou impressa no vidro como se fosse a papel químico por causa da sujidade da sua pata, e partiu. Mal o corvo bateu asas o homem tentou ler de dentro para fora mas não conseguiu. Pensou consigo mesmo que espécie de ave seria aquela que até deixava mensagens na cabine?! Mas teria de dar a volta pelo casco para decifrar os gatafunhos.
Sempre a navegar e ensimesmado pela atitude do corvo, algo o surpreendeu em frente e olhou a ravina onde ia a passar mesmo rentinho ao paredão para se desviar de um navio de carga. Qual não foi o seu espanto: o Caravela alimentava com o seu bico uma velhinha que estava estatelada na ravina sem nunca se mexer. O pássaro tirava do saco branco restos de peixe e punha na boca da idosa enquanto se segurava mal e se deixava escorregar para baixo, erguendo-se novamente até cima,para junto da senhora que para ali tinha sido cuspida acidentalmente. Aquilo durava há meses…
Então, movido pelo quadro, o timoneiro apressou-se a pedir auxílio e com uma haste amovível do barco, ajudou o pássaro na sua missão de assistente no rio.
Apurados os factos, foi o Corvo à presença do Presidente do Município que o condecorou por serviços humanitários em prol dos dados como desaparecidos. Aquela senhora, restituída à família, ficou eternamente grata à mãe natureza porque um corvo intuitivo e diligente lhe salvara a vida naquele precipício. Por isso mesmo o Refinado entendia agora os rabiscos do Caravela lá no seu Rabelo: devemos agradecer sempre o bem que nos fazem – é uma lei impressa no código genético de todos mas da qual muitos humanos se esquecem -.
E ainda hoje, o velho Barco é abrigo de corvos que por ali fazem porto de passagem para rotas sempre novas sobrevoando o Douro até ao Tua, sendo também cooperantes do rio. E o Caravela é o eterno corvo negro, perpetuado nas gerações mais novas que, numa rotina da espécie, não fazem se não obedecer às leis da própria natureza.
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